Cidade ficou sem energia elétrica, sem alimentação, água potável e enterrava mortos em valas comuns
Nesta terça-feira (24), Tubarão relembra os 52 anos da enchente de 1974, que assolou a Cidade Azul, deixou mortos, desabrigados e uma cidade fora do mapa no último século. Cerca de 90% da cidade ficou submersa por três dias, no que é hoje considerado a maior catástrofe natural já registrada no município.
À época, cerca de 60 mil pessoas ficaram desabrigadas e três mil casas foram destruídas. A população era de 70 mil. Até hoje, não há a confirmação sobre o número total de vítimas, embora uma lista oficial aponte para 199 mortes. No Arquivo Público e Histórico Amadio Vettoretti estão depositados os registros de 58 certidões de óbitos decorrentes da enchente, registradas em variados bairros, como São João, Caruru, Guarda, Sertão dos Corrêas e Lageado.
Tudo começou em uma sexta-feira, 22 de março, quando as chuvas da tarde foram mais intensas nos costões da Serra Geral, o que aumentava o volume dos rios e alagava áreas mais baixas. Em Tubarão, a vila Presidente Médici foi a primeira a ser atingida. No sábado, dia 23 de março, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros já haviam mobilizado equipes para socorrer a população nos bairros atingidos por alagamentos.

Entre tantas informações, a Rádio Tubá, maior emissora de Tubarão, alertava a população sobre as fortes chuvas. Muitos deixavam suas casas com o medo de serem carregados pela força da água, e deslocavam-se para lugares mais elevados, como a Catedral Diocesana, principal ponto de abrigo. Outros permaneceram em suas residências, não acreditando que a água, um bem para todos, poderia um dia ser fatal em suas vidas.
Desde aquela época, muitos moradores que sobreviveram e sofreram com a enchente, guardam na memória o terror que viveram durante o fim de semana. Muitos sentiram medo e pavor quando a ponte pênsil da UniSul foi levada pela forte correnteza do rio. Moradora do bairro Dehon, Doraci Lima Rodrigues, de 91 anos, conta à reportagem da Tubá sobre o que viveu com o marido naquela época.
“A chuva da enchente veio da ponte do Morrotes, veio pra cá, transbordou e pegou a nossa casa. E tinha uma casa na frente da nossa de dois andares. Quando nós saímos de dentro da nossa casa, a água estava pela cintura. Aí nós passamos, meu marido e eu, passamos, fomos naquela casa ali da frente. Nós vimos tudo, as casas indo embora, geladeira, cadeira, mesa. A gente via passar tudo lá de cima onde nós estávamos. Essa enchente foi bem perigosa. Aqui na nossa casa foi pra cima da janela até as cortinas. Em cima foi água por tudo, televisão, tivemos que botar na rua. Tudo. Acabamos com o colchão, guarda-roupa. Aí a prefeitura deu um guarda-roupa pra nós. Ele trabalhava na siderúrgica. A prefeitura deu guarda-roupa, deu roupa de cama também para nós, e dali a gente continuou a vida”, explica dona Doraci.
Durante dias, após a enchente, a cidade continuou sem energia elétrica, água potável e estava incomunicável com o resto do mundo. Sobrevoando os bairros cobertos pela água, um único helicóptero realizava os trabalhos de socorro. Dezenas de pessoas eram encontradas, sem vida, e fotografadas para posterior identificação. Seus corpos iam sendo transportados por caminhões e enterrados às dúzias em valas comuns. Além da água e da lama, no Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), foi registrado um caso de tifo, acendendo o alerta para o risco de um surto da temida doença. Conforme as informações da época, 50 bombeiros trabalhavam no resgate dos corpos e cem enfermeiras na vacinação contra tifo, varíola e tétano.
Enchente de 2022 também assustou moradores que passaram por 74
Após 1974, muitos tubaronenses tiveram que sair da cidade, pois temiam por novas catástrofes, estavam em luto, ou achavam que não havia mais futuro para eles no município.
Muito tempo depois, em 2022, uma nova enchente atingiu a cidade, inundando bairros como o Dehon, Humaitá, KM 60, São João, Bom Pastor e algumas outras localidades. O rio também chegou a extravasar, causando pânico em moradores que residem próximo à beira-rio, que escutavam um alerta da Defesa Civil através de um carro, para que voltassem às suas casas.

O Dehon voltou a ser um bairro muito atingido em maio de 2022, e que viria a registrar alagamentos no início de dezembro do mesmo ano e em outubro de 2023. Rute Wechi Pilon, moradora do bairro há anos, relembra o que perdeu em 2022, e relata que em 1974 ela e a família sofreram muito com a enchente.
“Eu moro pertinho da igreja São Judas Tadeu. Naquele dia, nós estávamos aqui, os vizinhos todos de prontidão, quando vimos a água crescendo na nossa rua, lá da rodoviária para cá. Primeira coisa, levei o carro para o morro na UniSul. Quando a água chegou no meu portão, eu tenho um sobradinho no fundo da casa, dois pisos, foi onde eu me refugiei com meus pets, e ali ficamos por três, quatro dias. A água entrou na minha casa, cerca de 15 centímetros por dentro de casa. O que era de móveis de madeira e estragou tudo, inclusive a geladeira, na área de serviço a máquina de lavar. Tive esses prejuízos, mas foi tudo ajeitado depois, mas a lembrança fica. Realmente eu fui bem atingida”, afirma ela.

Catedral: além da fé, um refúgio para os tubaronenses
Em março de 1974, a Catedral Diocesana foi um refúgio para os desabrigados, que eram atendidos pelas equipes de socorro e saúde, recebiam mantimentos, alimentos e lotaram o interior da igreja para abrigo. À época, o Pe. Raimundo Ghizoni abriu as portas da Catedral após pedidos dos comandantes do Exército.
Em maio de 2022, Pe. Eduardo Rocha, atual pároco da Catedral Diocesana, acolheu cerca de 600 pessoas. Os tubaronenses viveram, novamente, momentos de angústia e muitos relembraram o que passaram em 1974.
Nesta terça-feira (24), a Catedral de Tubarão irá repicar os sinos às 15 horas, lembrando sobre a enchente de 74. A Torre da Gratidão, inaugurada em 1983 e monumento idealizado pelo artista Willy Zumblick, permanece como um dos principais marcos da memória coletiva da cidade.
A cidade de Tubarão se reergueu, voltou a ser forte, mas a memória permanece. Uma lembrança triste, da qual nenhum tubaronense que já passou, quer voltar a reviver.
Matéria: Gabriel Rodrigues











